Ciúme e desconfiança sob um ponto de vista psicológico

Maio 4th, 2010

43.1

Professor Luis A. Vasconcellos – Psicólogo Clínico

 Ciume e desconfiança

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O “Inseguro/desconfiado” e suas projecções negativas sobre o Outro

“É fundamental notar que a desconfiança esteja sempre à procura de um motivo real onde se instalar e, de facto, nem precisa ser tão real assim: basta ser plausível e pronto!
Ela se instala!!!

Muito me tem sido perguntado quanto a esta “contaminação nociva” tão comum nos relacionamentos. Primeiro, se faz imperativo ressaltar que, esta “fantasia de segurança” que DEPENDE do outro para se tornar efectiva, não é segurança real, pois depende do Outro para existir.

De facto, em realidade, para o “desconfiado/inseguro” típico, não importa o que o Outro faça para evita-la, pois a Insegurança estará sempre presente, à espera de um motivo, já que ela não depende de um motivo real, pois emana do EU.

Vice-versa, poderíamos dizer que a “Confiança” e a “Segurança” são qualidades energéticas, ou seja, são algo que a gente ENTREGA, pois emana do EU para os Outros, ou então não existe, de modo algum.

É necessário ressaltar o aspecto “radiante” ou “energético” da confiança, do amor e da fé. Trata-se de um fenómeno energético, que tem a direção do EU para fora do EU e é projectada sobre o mundo e os outros. Aquele estado, comumente também chamado de “confiança” e que depende do Outro (ou do que o Outro faça!) para existir ou para se manter, em verdade, não merece este nome, pois não é confiança coisa nenhuma.

Se eu confio, não vigio, se confio não me faço um “negociante” da confiança ou da desconfiança do Outro, não me torno um GUARDA restritivo e muito zeloso de suas “posses adquiridas”, não me torno um “segurança”, sempre pronto a cercar e garantir, sempre pronto a proibir e a limitar a liberdade do outro.

Se EU, em nome de minha Insegurança exijo “provas” diuturnas de que o Outro nada tenha feito para merecê-la, então, de fato, de dentro de minha Insegurança, o Outro é CULPADO, a menos que PROVE O CONTRÁRIO, pois a realidade única que eu permito é a da minha DESCONFIANÇA e o Outro, na verdade, não é levado em conta, e sim, desconsiderado e desrespeitado em sua Individualidade, poder de escolha e liberdade. Aí está a raiz psicológica da Democracia aplicada ao campo dos relacionamentos interpessoais.

Para o “Inseguro e Desconfiado”, o Outro, de facto, nem existe como dimensão psicológica. Ainda que sua existência física e sua presença não possam ser negadas, para o “desconfiado/inseguro” a percepção psicológica da existência real do Outro ainda não aconteceu, pois a partir de sua imaturidade ele(a) não se relaciona com o Outro e, sim, com o espelho de si mesmo, através de julgamentos, explicações convenientes, condenações, preconceitos, pré-julgamentos de todo tipo, assunções de valor moral e, principalmente, uma imensidão de “carimbos moralistas sobre a testa alheia” com conotações negativas:

Você me trai! Você não é confiável! ………E assim por diante……….

É particularmente revoltante conferir que o “desconfiado/inseguro” (homem ou mulher) não se altera mesmo diante dos mais infundados motivos. O facto é que ele (a) é insensível ao Outro. O facto é que ele (a) não vê na realidade nada além do que ele mesmo cria, nada além daquilo que ele, de forma doentia, quer ver no Outro (sempre o pior, sempre o mais negro, sempre o mais terrível). Naturalmente, há várias graus de ansiedade, desde a mais leve até a mais pesada…

Ele só vê no outro o espelho de seu íntimo, nada mais, pois nunca tem a visão real da outra pessoa já que sua guerra é com os seus sentimentos negativos e com a projecção indiscriminada e inconsciente destes sentimentos sobre o Outro. Sua guerra é com a dependência estrita e estreita que ele nutre, todos os dias, com relação a estes sentimentos negativos e depressivos.

É como se ele (a) (“desconfiado/inseguro” ) dissesse, o tempo todo, para o Outro:
“Por favor, não me faça isso!!!! Não me traia!!! Não me abandone!!! Não me rejeite, nem me passe para trás!!! Eu sofreria tanto se isto me acontecesse que acho que seria capaz de perder a cabeça e fazer uma loucura!”
Quando, de facto, já é uma loucura fazer o que faz, do jeito que faz…

Exceptuando-se os casos em que o “desconfiado/inseguro” se depare com alguém realmente indigno de confiança e traidor, todas as outras possibilidades, que ele teve, de confiar, serão inapelavelmente desperdiçadas, pois ele não pode se dar ao luxo de confiar: é correr riscos demasiados… é “dar a arma para o bandido”!!! é demonstrar ingenuidade!!!
Sua imaturidade e sua baixa auto-estima não se remediam em absoluto por esforços de guardar e proteger possessivamente ao Outro; nem se apequena diante de um companheiro(a) que não lhe dê motivos e que se esforce, sabe Deus quanto, para não lhe causar este tipo específico de sofrimento. Engana-se o parceiro do “desconfiado/inseguro” se achar que seus esforços e o prejuízo que paga (por limitar tanto a sua vida) vá resultar em alguma evolução ou tranqüilidade para o companheiro. Este Ele vive em uma fantasia negativa e suas projecções inconscientes sobre a “Realidade” mascaram tanto o que ele vive que, não demora, ele pode já não distinguir entre o que é “imaginado por ele” e a realidade vivida – claro que há, também aqui, vários graus possíveis de comprometimento psicológico; Sua única chance é procurar ajuda especializada para vencer seus muros de autodefesa e parar, então, de atravancar o espaço psicológico de sua vida de relação (especialmente a conjugal) com seu medo da repetição de um passado, possivelmente conflituoso e até traumático.

O testemunho do Outro vale muito pouco, nestas horas negras, pois a desconfiança não permite a entrega (risco corrido por quem confia), não baixa a guarda e o temor engole, em seus subterrâneos mais profundos, todo e qualquer sentimento positivo que se podia nutrir na “cena de ciúme e traição” que o “desconfiado/inseguro” constrói.

Dependendo, naturalmente, do grau e da gravidade do problema, ele se parece com um director de cinema que sempre vê o mesmo filme, a mesma cena… e, de facto, não importa se esta é ou não real, pois, mesmo que não o seja, ainda assim parece possível (e plausível) aos seus olhos (tornados míopes pelos “filtros impiedosos de seus sentimentos negativos”…).
O “desconfiado/inseguro” tem de reconhecer que está (por assim dizer) ”possuído” por sentimentos negativos e que, em função deste facto, vive “dando voltinhas” sem abordar, de frente, a questão. Se ele(a) não é mais capaz de exercer sua escolha ou sua liberdade nesta questão, justifica-se a necessidade da ajuda especializada.

Uma coisa é certa: Ninguém sofre mais com o ciúme e a insegurança, do que o próprio “ciumento/inseguro”. Trata-se de um grande desperdício de energia e de vida!

Quem sofre tanto com este problema faria, por bem, atentar e ocupar-se “daquilo” que ele(a) ENTREGA no relacionamento, e menos, com “aquilo” que ele(a) RECEBE.

Há uma grande responsabilidade envolvida naquilo que ENTREGAMOS nas relações com os Outros, pois existem “cargas letais” para um relacionamento legítimo e o Ciúme e a Insegurança são, sem dúvida, dois tipos de “influências” (projecções) muito nocivas.

Assumir a responsabilidade pelo que “ENTREGAMOS” nos faz retomar o foco em nós mesmos (e naquilo que emana do EU), assim como nos faz parar de criticar tanto ao Outro, como se ele fosse o nosso “obstáculo de plantão” na jornada/caminhada em direcção da paz, da realização e da felicidade. As fantasias que temos com relação ao Outro são fantasmas que inconscientemente “projectamos” sobre a outra pessoa e são, na maioria das ocasiões, frutos de nossos medos, carências, ansiedades ou interesses pessoais. “

Luis A. Vasconcellos

Texto cedido pelo autor.


One Response to “Ciúme e desconfiança sob um ponto de vista psicológico”

  1. Susana Vitorino on Maio 26, 2010 23:30

    Caro Professor Luís Vasconcelos, passo apenas para lhe agradecer este texto tão “insighful”. Muito grata por esta partilha. Espere que não me leve a mal, mas vou divulgá-lo na minha página de Facebook.

    Bem haja

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