Regresso a Kurama

Janeiro 26th, 2012

Texto escrito por Satori Darshan

 

 Caminhando com a intenção de subir até à célebre zona dos Cedros de nodosas raízes entrelaçadas, deparo-me com um tosco banco de madeira na borda do caminho. Parece chamar-me. Atendo o seu chamado. Sento-me com movimentos de câmara lenta. Os meus pés assentam em folhas secas. Olho em frente e não posso dizer que tenha vista. Do banco apenas se vislumbra uma densa vegetação entretecida pelo meio da qual os raios de sol desbravam caminho. À medida que vou como que absorvendo o que vislumbro com a respiração e o olhar, vou-me esvaziando mais e mais. Penso, por um segundo, em Usui. Ele pode ter olhado exactamente para esta mesma extensão de árvores… Também Usui desaparece da minha mente. A minha mente ela própria começa a desvanecer-se. Nada. Silêncio. Nenhum visitante passa no caminho por trás de mim ou, se passa, não me apercebo disso. Imóvel. Respirando quase imperceptivelmente. Eternizo-me assim sentada em silêncio, desaparecida numa comunhão com o que está fora de mim que põe fim à costumada dualidade Eu /o resto. O assim consumido Eu separado dá lugar a um puro amor. Puro como o ar que se respira em Kurama, como a energia que aqui nos envolve e penetra. Sou cristalino amor. Amo as árvores e o céu e o sol e a sombra e as pedras e as folhas caídas e o banco. E amo-me incondicionalmente a mim. Lágrimas de amor-alegria correm-me pelas faces. A alegria de me esvair em amor. Estava ali antes a que olhava e respirava e agora essa desapareceu. Só permaneceu o olhar e a pópria respiração. Quem olhava e respirava já não está ali.

Faço força com os pés no chão do Salão de Chá. Respiro fundo. Não posso esvaziar aqui a mente ao ponto de repetir, efectivamente, a experiência por que passei há pouco. Há gente a conversar…Tenho de pagar. Olho para o relógio. É meio-dia. Sim, tenho de me pôr a caminho. Não lamento ter deixado de visitar os Cedros, nem aquele onde Mao-son terá encarnado, nem o Templo que assinala o lugar onde ele desceu de Vénus há mais de seis milhões de anos. Pego no saco das compras e na mala. Estranho o peso desta. Lembro-me de como abandonei o banco onde a Luz do vazio me devolveu o meu rosto original em Kurama. Invadida pelo Saber Maior que acompanha a Meditação profunda, lembro-me de olhar atentamente o chão, como se jamais me tivesse sido dado ver o que lá vi: terra, folhas, agulhas de pinheiros, pedras. Só uma frase eccoou dentro de mim: é o que conta em Kurama. Antes de poder avaliar o gesto, dei comigo a enterrar as mãos na terra. Deixei-me penetrar pela sua energia desfrutando as sensações que me provocava ao espalhar-se por todo o corpo. Em seguida, como se não me pertencessem, elas começaram a pegar nas folhas e nas pedras e na terra. Interroguei-me. A resposta veio pronta. Peguei no saco de plástico branco que envolvia o outro contendo as compras e enchi-o com as folhas e as pedras e a terra. O caminho das pedras. Pedra sobre pedra. Reiki sobre Reiki.

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